Há coisas que não vamos mudar
Pode parecer estranho ouvir isto de um psicólogo: há coisas que não vamos mudar. Mas talvez o mais importante não seja tentar apagá-las — seja perceber onde é que a verdadeira mudança pode, de facto, acontecer.
Não crescemos sozinhos, e por isso não nos transformamos sozinhos
Costumamos pensar na mudança como um trabalho solitário: olhar para dentro, identificar o que está "errado" e resolvê-lo com força de vontade. Mas quem somos foi-se construindo, desde muito pequenos, através das relações que tivemos — com quem nos cuidou, nos ouviu, ou às vezes não teve espaço para nos ouvir. A forma como amamos hoje, como reagimos ao conflito, como nos protegemos quando temos medo — muito disso não nasceu num vazio. Nasceu em relação com outras pessoas.
É por isso que há coisas que não desaparecem só porque decidimos, com toda a força, que querem mudar. Elas não vivem só na nossa cabeça — vivem também no modo como nos ligamos aos outros. E é aí, muitas vezes, que podem começar a transformar-se.
Quando repetimos o mesmo padrão, não é por fraqueza
Todos temos aquele padrão que se repete: a mesma discussão, o mesmo tipo de relação que nos magoa, o mesmo bloqueio que volta sempre que tentamos avançar. É fácil vermos isto como uma falha pessoal. Mas talvez seja, na verdade, uma parte de nós a tentar dizer algo que nunca teve oportunidade de ser dito ou ouvido antes. Não é um defeito a corrigir — é uma história a pedir para ser compreendida.
E essa parte raramente se resolve sozinha, só a pensar sobre ela em silêncio. Ela precisa, quase sempre, de ser encontrada por outra pessoa — com atenção, sem julgamento.
A mudança acontece em relação, não em isolamento
Na terapia, a mudança mais profunda não vem de um psicólogo que "resolve" o problema de alguém como se fosse um mecânico a arranjar uma peça. Vem de um encontro genuíno entre duas pessoas, onde alguém se sente verdadeiramente visto, sentido e acompanhado. É esse espaço de confiança — seja com um(a) terapeuta, um(a) parceiro(a), ou um bom amigo — que, com tempo e repetição, vai suavizando aquilo que parecia impossível de mudar.
Aceitar não é desistir — é permitir ser acompanhado
Aceitar o que não muda não significa baixar os braços. Significa, muitas vezes, admitir que certas partes nossas só se transformam quando são recebidas por alguém com carinho, sem pressa de as corrigir. É deixar que outra pessoa entre em contacto com essa parte mais rígida ou mais dolorida de nós — e, através desse encontro repetido e seguro, sentir que já não precisamos de a carregar exatamente da mesma forma.
Há coisas que não vamos mudar sozinhos, fechados em nós próprios. Mas em boa companhia — vivida, presente, real — quase tudo tem espaço para respirar de forma diferente.




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