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Os sonhos que ficam na sombra do medo

7 de out.
12 min de leitura

Uma reflexão clínica sobre reparação, repetição e o lugar da psicoterapia na vida do casal

Há casais que se encontram no meio da tempestade. Não se conhecem num jardim tranquilo, de vidas resolvidas, mas num ponto da estrada em que ambos vêm de longe, marcados por histórias que correram mal. E, ainda assim, reconhecem-se — é talvez aí que mora a parte mais bonita, e mais frágil, do amor.

Penso sobretudo nas famílias que se recompõem: pessoas que foram feridas numa primeira relação e tentam, numa segunda, construir aquilo que não tiveram — levando consigo os filhos, as histórias e os medos de antes. É um movimento cheio de esperança e, ao mesmo tempo, exposto a um risco particular, de que falarei ao longo deste texto.

Este não é um fenómeno marginal, e tem uma história. Em Portugal, o divórcio foi instituído pelo decreto de 3 de novembro de 1910, menos de um mês após a implantação da República; até então, só era possível a separação de pessoas e bens. A nova lei admitia tanto o divórcio litigioso como o divórcio por mútuo consentimento, e o recenseamento de 1911 contava já 2685 pessoas divorciadas (Público, 2013). A Concordata de 1940 viria, porém, proibir o divórcio a quem casasse pela Igreja — a esmagadora maioria dos casamentos —, restrição que só caiu em 1975, já em democracia, com um protocolo adicional à Concordata (Diário da República, s.d.).

Os números acompanham estas mudanças. De acordo com a Pordata, nos anos sessenta e no início dos setenta, com a restrição em vigor, registavam-se apenas algumas centenas de divórcios por ano (509 em 1970); em 1977, dois anos depois da revisão da Concordata, eram já 7773, e em 2008 eram 26 110. Nos últimos anos, o número absoluto tem descido (15 743 em 2024, valor provisório), mas também se casa hoje muito menos: em proporção, chegou a haver entre setenta e noventa divórcios por cada cem casamentos (Pordata, s.d.). Ter várias relações significativas ao longo da vida é hoje, para muitos, uma realidade.

A reflexão que aqui proponho nasce do meu trabalho clínico com casais. Parto de uma história concreta, alterada de forma propositada para proteger a intimidade de quem me confia a sua, e cruzo-a com ideias psicanalíticas que, a meu ver, a iluminam: dos textos fundadores de Freud e de Klein à psicanálise relacional dos nossos dias.

Deixo, porém, uma nota importante. A leitura deste caso — a ligação que estabeleço entre os acontecimentos de vida deste casal e os conceitos que convoco — é minha. Os autores que cito não falam deste casal; dão-me antes o quadro teórico que sustenta e aprofunda o meu pensamento clínico sobre este caso em particular. Escrevo, de resto, não apenas a partir da cadeira do terapeuta. O movimento de querer reparar numa nova relação aquilo que uma anterior feriu, e os medos que teimam em segui-lo, não me são estranhos — e talvez seja também daí que vem a minha atenção a estes casais.

Um sonho nascido na adversidade

Conheceram-se há mais de uma década. No início não tinham quase nada e dormiram, durante algum tempo, num espaço emprestado e improvisado. E, no entanto, quando ele recorda esse tempo, não fala de miséria: fala de beleza — foram, diz, os anos mais intensos e mais próximos.

Foi nesse clima de grande intimidade, e de crença num projeto comum, que a filha de ambos foi concebida. Havia pouco de material, mas havia um sonho: (re)construir uma família, amar e ser amado, e fazer melhor do que no passado.

Na minha leitura, esse «fazer melhor» é o motor secreto desta relação. Cada um trazia uma história difícil: ela, anos de violência e de anulação; ele, um primeiro casamento marcado também pela violência e pelo abandono, e uma separação longa e dolorosa, em que esteve em jogo a relação com os filhos. Quando se escolheram, escolheram-se também contra esse passado — procuravam, um no outro, a reparação daquilo que os tinha ferido.

A reparação e as relações primordiais

Esta ideia de reparação tem raízes psicanalíticas profundas. Foi Melanie Klein quem lhe deu estatuto de conceito: o impulso de reconstruir, dentro de nós e na relação, o objeto amado que sentimos ter danificado (Klein, 1937/1996). A meu ver, é algo dessa ordem que opera na escolha amorosa deste casal.

Mas a reparação só se compreende à luz daquilo que a precede: as relações primordiais. Stephen Mitchell, um dos fundadores da psicanálise relacional, descreve a mente como constituída numa matriz relacional: tendemos a recriar, nas relações adultas, as formas de ligação que aprendemos primeiro, mesmo as que nos fizeram sofrer, porque foi assim que aprendemos a estar ligados a alguém (Mitchell, 1988).

Jessica Benjamin mostra como a tensão entre reconhecer o outro e ser reconhecido por ele se "joga" desde os primeiros laços, entre a mãe e o bebé, e regressa em cada relação amorosa adulta. Para ela, dominar e submeter-se não são instintos: são o que acontece quando o reconhecimento mútuo falha (Benjamin, 1988/2026). Para alguém que viveu anos de humilhação, esta leitura é preciosa — a ferida, a meu ver, não é só a da violência sofrida, é também a de um reconhecimento negado durante demasiado tempo.

Talvez, por isso, quando escolhemos um par, não escolhamos apenas uma pessoa: procuramos também, sem o saber, uma nova oportunidade de escrever um final diferente para uma história antiga.

Quando o medo toma o lugar do sonho

A reparação, porém, tem um reverso. Freud chamou-lhe compulsão à repetição: a tendência para reencenar, sem disso termos consciência, aquilo que mais nos feriu (Freud, 1920/2009). O que não foi elaborado tende a regressar, disfarçado mas reconhecível.

É esta, na minha leitura, uma chave possível do que começou a acontecer-lhes. Com o tempo, as dificuldades acumularam-se: o nascimento da filha, a convivência forçada com a família alargada, as tensões com os enteados, a partilha de um espaço onde ela deixou de se sentir legítima. E os velhos fantasmas acordaram.

Quando ela se sente desrespeitada — sobretudo nos confrontos com o adolescente da casa — não está, a meu ver, apenas a reagir ao presente. Algo nela revive a humilhação antiga e a perda de autonomia de que tão duramente conseguiu sair. «Voltei a sentir-me desrespeitada», diz; e, embora aqui não haja violência do companheiro, o gatilho parece ser o mesmo.

Philip Bromberg, uma das vozes centrais da psicanálise relacional contemporânea, ajuda a compreender este mecanismo. Descreve o trauma relacional como a experiência de ver partes de si desconfirmadas, como se não tivessem existência legítima aos olhos dos outros. Quando essa vaga de afeto — o seu tsunami — não pôde ser pensada com alguém, deixa uma sombra de medo que fragiliza a capacidade de regular as emoções junto do outro e de nele confiar (Bromberg, 2011).

Para Bromberg, a mente passa a funcionar como um detetor de fumo, sempre alerta para o regresso da inundação. A meu ver, é nessa sombra de medo que o sonho deste casal ficou retido: cada confronto acende o alarme de um perigo antigo, e o medo ocupa o lugar que era do desejo.

Jessica Benjamin, no seu livro mais recente, descreve o que acontece entre dois quando o reconhecimento colapsa. A relação cai numa lógica de quem faz e quem sofre — o doer and done to — em que cada um tende a sentir-se alvo do outro e a reagir a partir daí (Benjamin, 2018). A saída, para a autora, não passa por encontrar um culpado: passa por recriar um espaço terceiro, partilhado, onde o dano possa ser reconhecido e reparado.

Na tradição da Tavistock, David e Jill Scharff descrevem o casal como um pequeno grupo de dois, em que cada um deposita no outro, sem o saber, figuras do seu passado — a identificação projetiva (Scharff & Scharff, 1991). Interpreto o que explode entre eles como uma peça antiga encenada a dois: um guião que não escreveram, mas que repetem.

A sombra das gerações

Há ainda uma camada mais funda. Quando a presença da mãe dele se tornou uma sombra sobre a casa, não estava em causa, no meu entender, apenas uma sogra intrusiva. Mexer no lugar dos pais tende a mexer em algo primordial: no primeiro amor, na primeira lealdade.

Ivan Boszormenyi-Nagy descreveu a forma como cada um de nós permanece ligado à família de origem por lealdades invisíveis: compromissos inconscientes que resistem mesmo quando, à superfície, nos zangamos com ela (Boszormenyi-Nagy & Spark, 1973). De acordo com esta perspetiva, atacar os pais do parceiro pode ser vivido como um ataque ao seu amor primordial, com consequências para o casal. Quem se sente obrigado a escolher entre a lealdade aos pais e a lealdade ao par tende a ficar dividido, e o casal pode sentir essa divisão como distância.

Retomando Freud, René Kaës e os seus colaboradores lembram que cada um de nós é, ao mesmo tempo, herdeiro, servidor e beneficiário da vida psíquica dos que nos precederam (Kaës et al., 1993/2001). O que foi elaborado transmite-se como herança que organiza: ideais, identificações, formas de amar. O que ficou por pensar — sobretudo o mais doloroso — passa calado de geração em geração e vem habitar as relações seguintes.

Galit Atlas, numa linguagem mais próxima e mais recente, chama a isto herança emocional: as emoções que uma geração não conseguiu elaborar, sobretudo as traumáticas, transmitem-se às seguintes e assombram-nas como fantasmas, abrindo um fosso entre aquilo que desejamos para nós e aquilo que conseguimos ter (Atlas, 2022/2023). Lida assim, a tensão com o adolescente da casa deixa de ser apenas uma questão de autoridade. Podem ser dois fantasmas que se encontram: ela ouve desrespeito e revive a humilhação; ele, abandonado em criança por uma mãe, talvez esteja a testar se também esta madrasta — a quem chama «mãe» — se vai embora. E a pergunta estende-se à geração seguinte: ao que a filha de ambos está, em silêncio, a herdar.

Compreender isto não serve, a meu ver, para culpar ninguém — nem os pais, nem o passado. Serve para devolver sentido ao que, de outro modo, parece absurdo ou intolerável. Quando um casal percebe que grande parte do que o divide não é o presente, mas o passado que nele se reativa, abre-se uma possibilidade nova: deixar de ser agido pela sua história e começar, finalmente, a pensá-la.

Organizar o que se sentiu: o lugar da psicoterapia

É aqui que, para mim, a psicoterapia encontra o seu sentido mais profundo. Não como um lugar de culpados e inocentes, mas como um espaço onde aquilo que se sentiu — e que muitas vezes nunca foi posto em palavras — pode finalmente ser organizado, compreendido, elaborado.

Donnel Stern chama a isto experiência não formulada: vivências que nos habitam sem nunca terem ganho forma de pensamento. Para ele, esses significados só emergem dentro de uma relação, quando alguém se torna nosso parceiro de pensamento — uma testemunha emocionalmente disponível para aquilo que vivemos (Stern, 2010).

Esse trabalho faz-se, no meu entender, em dois planos que se completam. Na psicoterapia individual, cada um pode voltar à sua própria história, reconhecer os seus gatilhos e perceber de onde vêm. É aí que se aprende a não confundir o passado com a pessoa que se tem à frente.

Na psicoterapia de casal, os dois podem olhar juntos para o que se passa entre eles, como quem observa uma dança. Mary Morgan, da Tavistock Relationships, chama-lhe estado de mente de casal: a capacidade de dar um passo atrás e ver a relação como um terceiro, algo que os dois criam em conjunto (Morgan, 2019). Os casais chegam muitas vezes convencidos de que o problema é o outro; essa capacidade começa por estar no terapeuta e, com o tempo, pode ser interiorizada pelo próprio casal.

Philip Ringstrom, num modelo de terapia de casal assumidamente relacional, propõe que o terapeuta comece por se sintonizar com as esperanças e os receios de cada parceiro, reconhecendo que a relação tem, ela própria, uma mente (Ringstrom, 2014). É exatamente isto que procuro fazer na clínica: escutar, ao mesmo tempo, o sonho e o medo que o encobre. É também esta a aposta da tradição francesa da terapia psicanalítica de casal e de família, de André Eiguer em diante, que concebe o vínculo como tendo uma vida psíquica própria (Eiguer, 1983/1985).

Porque a confiança, o respeito e o amor não são um ponto de partida garantido. São uma construção paciente, feita também de gestos concretos: voltar a dar as mãos ao fim do dia, olhar nos olhos, despedir-se com ternura antes de dormir. Gestos pequenos, mas que dizem ao outro — e a nós próprios — que o laço continua vivo.

Devolver o sonho ao futuro

Stephen Mitchell, no último livro que escreveu, publicado já depois da sua morte, pergunta se o amor pode durar. A sua resposta surpreende: o romance não se gasta com o tempo por fatalidade; torna-se, isso sim, mais perigoso, porque nos torna mais dependentes e vulneráveis (Mitchell, 2002). Aquilo a que chamamos o fim da paixão é, muitas vezes, gestão do risco — uma segurança que construímos para nos protegermos dessa vulnerabilidade.

Leio assim, neste casal, o dormir de costas voltadas: menos um sinal de desamor do que uma forma de proteção. Quem foi ferido tende a aprender a não se expor. Mas a proteção que evita a dor pode acabar por apagar também o desejo — e, com ele, aquilo a que Galit Atlas chama a face enigmática do desejo, feita do que é oculto e por conhecer, por oposição à face pragmática, a que se observa e se organiza (Atlas, 2016). Arrisco que este casal ficou preso ao pragmático, a quem disciplina o rapaz e quem trata da casa, e perdeu o enigma que tinha quando não tinha nada — justamente nesse espaço improvisado onde o desejo não precisava de ser gerido, apenas vivido.

Bromberg diz algo semelhante sobre a relação terapêutica: só há crescimento quando segurança e risco podem coexistir (Bromberg, 2011). Creio que o mesmo vale para o casal. Os pequenos gestos de que falei — dar as mãos, olhar nos olhos, despedir-se à noite — são isso mesmo: riscos pequenos, vividos em segurança, que devolvem ao corpo a memória do sonho.

No fundo, o que estes casais procuram não é difícil de nomear, ainda que seja difícil de alcançar. Querem encontrar, na relação de agora, aquilo que desejam desde sempre: ser amados sem medo, ser respeitados sem terem de se defender, confiar sem recear a repetição. Mitchell compara o romance a um castelo de areia construído a dois, que é preciso refazer continuamente — e talvez seja essa a forma mais honesta de pensar o amor que dura.

E é aqui que, a meu ver, se joga o essencial destas famílias recompostas. O medo da repetição pode, ele próprio, fazer repetir: a relação fracassa, e por vezes a seguinte também, enquanto o guião antigo continuar a ser agido e não pensado. Até que algo interrompe o ciclo. Na minha experiência, raramente é o tempo, por si só, que cura — é antes o momento em que duas pessoas decidem procurar ajuda e pensar aquilo que até aí só repetiam. Procurar ajuda pode ser, assim, o primeiro gesto de interrupção.

Atlas, agora com Lewis Aron, dá a este movimento um nome que me parece justo: encenação generativa. A mente não repete apenas o passado — também ensaia o futuro, e dentro da repetição pode estar um sonho a tentar passar (Atlas & Aron, 2018). Quando esta mulher explode em vez de se calar, talvez não esteja só a reviver a antiga humilhação: na relação anterior não podia protestar, e agora protesta, ainda que desajeitadamente. Vista assim, a explosão guarda um pedido. E os pequenos gestos que proponho a este casal — dar as mãos, olhar nos olhos, despedir-se à noite — deixam de ser meras técnicas: são ensaios de um futuro diferente daquele que ambos temem.

Na minha experiência, o sonho raramente desaparece quando as coisas se tornam difíceis. Fica antes na sombra, encoberto pelo medo. E o trabalho terapêutico é, muitas vezes, isto: ajudar duas pessoas a saírem da sombra do medo para voltarem a ver, lado a lado, aquilo que um dia sonharam juntas — e a perceber que esse sonho, longe de estar perdido, pode ainda ser o chão onde constroem o futuro.

Referências

Sempre que existe tradução em português, cita-se essa edição, com a data da publicação original; as obras sem tradução portuguesa conhecida citam-se no original.

Atlas, G. (2023). Herança emocional: Como superar o legado do trauma, recuperar a sua vida e ser feliz. Alma dos Livros. (Trabalho original publicado em 2022)

Atlas, G., & Aron, L. (2018). Dramatic dialogue: Contemporary clinical practice. Routledge.

Benjamin, J. (2026). Os laços de amor: Psicanálise, feminismo e o problema da dominação (V. H. Ferreira da Costa, Trad.). Quina Editora. (Trabalho original publicado em 1988)

Boszormenyi-Nagy, I., & Spark, G. M. (1973). Invisible loyalties: Reciprocity in intergenerational family therapy. Harper & Row.

Diário da República. (s.d.). Divórcio. In Lexionário. Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Eiguer, A. (1985). Um divã para a família: Do modelo grupal à terapia familiar psicanalítica. Artes Médicas. (Trabalho original publicado em 1983)

Freud, S. (2009). Para além do princípio do prazer (I. Castro Silva, Trad.). Relógio D'Água. (Trabalho original publicado em 1920)

Kaës, R., Faimberg, H., Enriquez, M., & Baranes, J.-J. (2001). Transmissão da vida psíquica entre gerações. Casa do Psicólogo. (Trabalho original publicado em 1993)

Klein, M. (1996). Amor, culpa e reparação. In Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921–1945) (Obras completas de Melanie Klein, Vol. 1). Imago. (Trabalho original publicado em 1937)

Mitchell, S. A. (1988). Relational concepts in psychoanalysis: An integration. Harvard University Press.

Mitchell, S. A. (2002). Can love last? The fate of romance over time. W. W. Norton.

Pordata. (s.d.). Casamentos e divórcios [Base de dados]. Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Público. (2013, 14 de fevereiro). Divórcio: é fim e é recomeço.

Ringstrom, P. A. (2014). A relational psychoanalytic approach to couples psychotherapy. Routledge.

Scharff, D. E., & Scharff, J. S. (1991). Object relations couple therapy. Jason Aronson.

 
 
 

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