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Quando o “bom” nunca chega: perfecionismo na adolescência

30 de set.
3 min de leitura

Atualizado: 1 de out.

Por Dra. Ana Rita Matos, psicóloga júnior

“Podia ter feito melhor.”

“Não está assim tão bom.”

“Se não for para fazer bem, mais vale nem fazer.”

Na adolescência, frases como estas podem parecer apenas sinais de exigência, responsabilidade ou vontade de ter bons resultados e, em muitos casos, fazem parte de um funcionamento perfeitamente adaptativo. Querer fazer bem, ter objetivos e esforçar-se são características importantes.

A dificuldade surge quando o “fazer bem” deixa de ser suficiente e o adolescente sente que precisa de fazer sempre melhor, sem margem para falhar. Nessa altura, o perfecionismo pode deixar de funcionar como motivação e começar a transformar-se numa fonte de pressão.

Quando a exigência deixa de ajudar

O perfecionismo não significa simplesmente “querer fazer tudo bem”. Envolve, muitas vezes, o estabelecimento de padrões muito elevados e a avaliação do próprio valor a partir da capacidade de os atingir.

Um teste pode ter uma boa nota, mas o adolescente fixa-se na pergunta que errou. Um trabalho pode ser elogiado, mas a atenção fica presa ao pequeno detalhe que poderia ter sido diferente. Um erro normal transforma-se rapidamente em “não sou suficientemente bom”.

Esta diferença é importante: a exigência saudável permite o esforço e a aprendizagem, enquanto o perfecionismo tende a tornar o erro difícil de tolerar.

Alguns adolescentes passam, por isso, muito tempo a rever trabalhos, a estudar mais do que precisam ou a procurar garantias de que fizeram tudo corretamente. Outros fazem o contrário: adiam, evitam ou desistem antes de começar, porque a possibilidade de não conseguirem atingir o resultado esperado torna-se demasiado desconfortável.

O perfecionismo também pode aparecer fora da escola, como na aparência, nas relações de amizade, no desporto ou na forma como sentem que devem corresponder às expectativas dos outros.

O papel dos pais: ajudar a separar desempenho de valor pessoal

Uma das mensagens mais importantes que um adolescente pode receber é que o seu valor não depende do seu desempenho. Isto não significa deixar de ter expectativas ou deixar de valorizar o esforço, significa ajudar a construir uma relação mais equilibrada com o sucesso e com o erro.

Em casa, pode ser útil:

  • Perguntar “Como te sentiste com o resultado?” em vez de perguntar apenas “Que nota tiveste?”.

  • Valorizar estratégias, persistência e aprendizagem, e não apenas o resultado final.

  • Normalizar o erro como parte do processo: “O que correu menos bem? O que podes aprender com isso?”

  • Evitar comparações com irmãos, colegas ou amigos.

  • Ajudar a distinguir o que é “fazer o melhor possível” de “ter de fazer perfeito”.

  • Incentivar pausas, sono, lazer e relações sociais como partes importantes da vida, e não como recompensas depois de cumprir todas as tarefas.

  • Quando o adolescente está muito autocrítico, experimentar perguntar: “Se fosse um amigo teu a dizer isto sobre si próprio, o que lhe responderias?”

Também pode ser importante observar a linguagem que usamos. Comentários como “tu consegues sempre”, embora sejam bem-intencionados, podem inadvertidamente transmitir a ideia de que é esperado que consiga sempre. Por vezes, “não precisas de conseguir sempre. Podes tentar, errar e voltar a tentar” é uma mensagem mais protetora.

Quando vale a pena estar atento

O perfecionismo merece maior atenção quando começa a interferir de forma consistente com o funcionamento do dia a dia ou com o bem-estar emocional.

Alguns sinais a que os pais podem estar atentos incluem ansiedade intensa perante avaliações ou erros, medo desproporcional de falhar, procrastinação frequente, necessidade excessiva de confirmação, dificuldade em terminar tarefas por querer aperfeiçoá-las, irritabilidade perante pequenos erros, perda de prazer em atividades anteriormente valorizadas ou uma autocrítica persistente.

Também merece atenção quando o adolescente começa a evitar desafios por receio de não os conseguir fazer suficientemente bem, ou quando o desempenho escolar parece aumentar enquanto o descanso, a alimentação, o sono ou a vida social ficam progressivamente comprometidos.

Não é necessário esperar que estas dificuldades se tornem graves para procurar ajuda. Um psicólogo pode ajudar o adolescente a compreender de onde vêm estas exigências, trabalhar a tolerância ao erro e desenvolver uma relação mais flexível consigo próprio.

Afinal, crescer não é aprender a fazer tudo perfeitamente, mas sim aprender que podemos ser suficientemente bons, mesmo quando alguma coisa não corre como esperávamos.

Se reconhecerem este padrão no vosso filho ou filha e sentirem que está a começar a pesar mais do que seria desejável, procurar apoio psicológico pode ser uma forma tranquila de compreender o que está a acontecer e encontrar novas estratégias.

 
 
 

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