Quando o amor dói: compreender o ciclo da violência nas relações
Por Dra. Catarina Padinha
Como começa
Nem sempre conseguimos perceber o momento exato em que uma relação começa a mudar. Na maioria dos casos, não acontece de um dia para o outro: acontece através de pequenos comportamentos que se vão instalando lentamente e que, no início, até podem parecer demonstrações de amor, preocupação ou interesse.
Um comentário sobre a forma como nos vestimos, uma pergunta sobre com quem estivemos, a necessidade de saber onde estamos a cada momento, o desconforto quando estamos com determinadas pessoas ou a sensação de que precisamos de pensar duas vezes antes de dizer aquilo que realmente sentimos. Até que, sem percebermos como, começamos a adaptar-nos para evitar discussões e a deixar partes de nós para trás.
É aqui, entre aquilo que sentimos e aquilo que começamos a fazer para evitar um conflito, que a violência pode ganhar espaço numa relação… de forma silenciosa e difícil de reconhecer.
Existe a ideia de que a violência implica sempre agressão física. No entanto, o medo pode surgir através das palavras, do controlo, da manipulação, das ameaças, da humilhação, do isolamento ou da pressão constante para corresponder às expectativas da outra pessoa.
O ciclo da violência
Num destes momentos em que tudo parece confuso, é normal surgir a pergunta que pode ser difícil verbalizar: “Se me ama, porque é que me trata assim?”. A verdade é que a violência numa relação pode acontecer precisamente dentro de um ciclo em que momentos de tensão e sofrimento se alternam com momentos de carinho, proximidade e aparente tranquilidade.
Inicialmente, a tensão vai aumentando, surgem discussões, críticas, ciúmes ou comportamentos de controlo, até que acontece um episódio de violência. Em seguida, podem chegar os pedidos de desculpa, as promessas de mudança, os gestos de carinho e a esperança de que aquela tenha sido a última vez, fazendo surgir novamente o perdão e a esperança na relação.
Porque é tão difícil sair
Talvez seja a esperança que torna tudo ainda mais difícil. Quem vive uma relação abusiva não deixa necessariamente de amar, nem esquece os momentos bons. Permanecer numa relação violenta não significa escolher a violência, tal como pedir ajuda não significa admitir fraqueza.
Se se reconhece nesta descrição, não está sozinho(a). Falar com alguém é um primeiro passo. Pode ligar para a Linha de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica, 800 202 148, ou enviar uma mensagem escrita para o 3060, gratuitamente e a qualquer hora. Em situação de perigo, ligue 112. Também pode procurar a APAV, através do 116 006, ou marcar uma consulta de psicologia para compreender o que está a viver, ao seu ritmo e em segurança.
“Amar” e “violência” são palavras que nunca deveriam ocupar o mesmo lugar numa relação.




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