Telemóveis na escola: e se a questão não for proibir, mas ensinar a usar?
Por Dra. Rita Matos e Dra. Catarina Padinha, psicólogas
O regresso às aulas e a pressão dos ecrãs
O regresso às aulas pode trazer alguma ansiedade às crianças e aos adolescentes. Há novas rotinas, exigências, professores e, muitas vezes, a preocupação com os resultados e com a integração no grupo. Num mundo em que as relações também acontecem através dos ecrãs, o telemóvel acaba por fazer parte destas preocupações. A comparação com os outros, a necessidade de estar sempre disponível ou o medo de ficar de fora podem aumentar a pressão que alguns jovens já sentem.
Proibir chega?
É neste contexto que se tem discutido a utilização dos telemóveis nas escolas. Em Portugal, a proibição está em vigor no 1.º e 2.º ciclos desde setembro de 2025 e será alargada ao 3.º ciclo, do 7.º ao 9.º ano, a partir de janeiro de 2027. Esta decisão surge também depois dos resultados do acompanhamento realizado pelo PLANAPP (Centro de Planeamento e de Avaliação de Políticas Públicas), que associou a restrição dos smartphones a melhorias na socialização e na disciplina dos alunos. Os resultados apontaram ainda para uma diminuição mais acentuada de situações de bullying nas escolas que adotaram restrições.
Estabelecer limites pode, de facto, ser importante. A escola é um espaço de aprendizagem, mas também de relação e de convivência, e nem sempre é fácil competir com um dispositivo que oferece estímulos constantes. Ter momentos sem telemóvel pode facilitar a concentração, promover a interação entre os alunos e dar espaço para outras experiências. Mas proibir, por si só, não resolve a relação que uma criança ou adolescente tem com a tecnologia. O telemóvel vai continuar presente fora da escola e faz parte da realidade em que estas crianças estão a crescer. Por isso, talvez a questão não seja apenas proibir, mas também ensinar a utilizar.
Como ajudar os filhos a ter uma relação equilibrada com a tecnologia?
Em casa, os pais podem ter um papel decisivo. Em vez de existirem apenas regras impostas, pode ser útil construí-las em conjunto com os filhos, definindo, por exemplo, momentos sem ecrãs, como as refeições, e evitando que o telemóvel fique no quarto durante a noite. O exemplo dos adultos também conta: é difícil pedir a uma criança que largue o telemóvel se os próprios pais estão constantemente ligados.
Também vale a pena conversar sobre aquilo que os filhos encontram nas redes sociais. Perguntar o que viram, como se sentiram ou porque determinada publicação lhes chamou a atenção pode abrir espaço para uma conversa sem julgamentos. Da mesma forma, é importante permitir momentos de tédio e de brincadeira sem ecrãs. Nem todos os momentos precisam de ser preenchidos. Brincar, conversar, imaginar ou simplesmente não fazer nada também fazem parte do desenvolvimento.
Há, no entanto, alguns sinais a que devemos estar atentos. Um maior isolamento, irritabilidade quando não pode utilizar o telemóvel, alterações do sono ou uma quebra significativa no desempenho escolar podem indicar que é necessário olhar com mais atenção para a relação que a criança está a estabelecer com a tecnologia. Nestas situações, procurar ajuda pode fazer a diferença.
Enquanto psicólogas, não vemos a tecnologia como uma inimiga. O objetivo não é criar crianças que saibam viver sem telemóveis, mas crianças que consigam utilizá-los de forma equilibrada, percebendo quando são úteis e quando é importante desligar. A tecnologia fará parte do seu futuro e, por conseguinte, ensinar a utilizá-la de forma saudável também é uma forma de as preparar para esse futuro.
Se queremos preparar as crianças para um mundo cada vez mais tecnológico, não será também importante ensiná-las a perceber quando é altura de desligar?
Se sentir que o seu filho precisa de apoio, estamos disponíveis para ajudar. Saiba mais sobre o nosso acompanhamento psicológico de crianças e adolescentes.




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